25 de agosto de 2016

querer não é poder: é voltar

dizem que as voltas que a vida dá são um regresso onde já fomos felizes
e eu
podia dizer-te que o tempo estagnou para mim,
que as cordas do meu passado se enrolaram como serpentes
para me sufocar
podia convencer-te de que o progresso é, na verdade, estagnação
e de que há vozes familiares, que de tão bem nos saberem embalar
acabam por não nos deixar acordar e viver
podia admitir que, não raras vezes, as minhas voltas são em círculos fechados,
que a minha vida é lançada à sorte por dados viciados
que tudo é nada, quando nada é aquilo que realmente queria ter

mas voltar
é um vício que a necessidade obriga,
regredir
às vezes, também é avançar
recordar
é reconhecer (ou conhecer ainda melhor)
as vozes que embalam nas noites em que não conseguimos dormir
guardar
não é sinónimo de apegar, mas de não esquecer
e lembrar
é saber que não há maior felicidade do que a de ter um passado que, apesar de monstruoso,
ensina a errar,
a lutar
e a não desistir
mas também a dizer adeus, a deixar ir o que não nos faz bem, e a viver com a certeza de que, apesar das voltas que insistimos em dar, as coisas mudam, a vida passa e o vento acaba por levar de nós tudo aquilo que um dia quisemos largar.

e enquanto a vida permitir:
eu voltarei à tua voz
porque me faz bem
porque não quero que o vento te leve para longe de mim

1 comentário:

disse...

"mas voltar
é um vício que a necessidade obriga" e como tão bem disseste, por vezes é preciso andar para trás para poder continuar em frente. é por isso que não acredito quando me dizem que não devemos olhar para trás, não acredites também:)