14 de agosto de 2015

o sujeito que eu escondi

«Já não sou quem era (...) Já não fico à espera (...) Já vejo sem me deslumbrar»

aos 17 esperamos sempre outra versão de nós.

se pudesse mudar alguma coisa na minha vida, mudava apenas o rumo que ela tomou. se tivesse sido eu a decidir, seguiria pelo outro caminho da estrada.

se fosse um animal, seria um leão, se fosse um elemento, seria a terra, se fosse um estilo, poesia, se fosse um objecto seria uma máquina de escrever, se fosse uma paisagem, seria uma serra ao entardecer.
e, se a vida é uma mera estrada acidentada, eu quero percorre-la como se estivesse a cair, porque a verdade é que, para mim, só vale a pena viver com uma permanente sensação de vertigem.
criei um blog - este - aos 12 anos e agora, com 17, ainda não faço a mínima ideia do que ando cá a fazer.
sou uma pessoa simples, por vezes complexa: mera síntese daquilo que o mundo tem de melhor e pior. 
perco-me por livros, adoro poesia, e um dia, daqui a muitos anos, vou tirar um curso de Literatura. 
sou indecisa (tanto para escolher uma peça de roupa, como para decidir o meu futuro), mas determinada; sonhadora, mas não utópica; indecente, mas bem-educada; complicada, mas não insuportável; impulsiva, mas apenas como resposta às atitudes de quem está comigo... enfim, uma montanha-russa de adjectivos contraditórios que fazem, muitas vezes, com que a maior parte das pessoas tenha uma ideia muito errada de mim. 
mas, no fundo, depois de tanta coisa, já não sou quem era, não. 
deixei a teimosia e entendi que, na maior parte das vezes, não vale a pena discutir com quem tem opiniões congeladas. deixei de impor os meus ideais, mas continuo (e continuarei sempre) a defende-los como parte de mim. aprendi que nem sempre as pessoas agem como deviam e, também, que pouca gente retribuiu aquilo que recebe (seja amor, compreensão, ou dinheiro emprestado), mesmo que, para mim, a gratidão seja uma das coisas mais importantes a manter. desisti, portanto, de ficar à espera. Já não espero mais. dou amor a quem dá amor; amo quem precisa de ser amado (quer queira ou não), desejo, com a maior sinceridade, o bem ao mundo inteiro, mas não me canso a correr atrás de quem não espera por mim nem sentado. 
tornei-me mais fria? não: deixei de me iludir e aceitei que nem toda a gente tem a capacidade que eu tenho de amar e compreender. 
tudo aquilo que passei nestes últimos onze meses (e, no fundo, em muitos outros da minha vida) doeu. e doeu como vidro afiado a passar na garganta, mas ensinou-me a viver como deve ser - sem ilusões ou nuvens difusas na minha cabeça.
(obrigada, pai, por saires da nossa casa na véspera dos meus dezassete anos, obrigada por encerrares o espectáculo destrutivo da nossa vida familiar. graças a ti, e graças às defesas que fui forçada a construir, perdi as férias de verão que eu tanto gostava, perdi a presença constante do meu irmão, perdi hábitos monótonos mas que me faziam tão, tão bem e, apesar de ter ficado na merda, aprendi a comer decentemente, a ser o pilar de uma família constituída apenas por mim e duas pessoas altamente marcadas por tudo aquilo que lhes fizeste. perdi tudo, pai, mas no fundo consegui ganhar metade das coisas que levaste e enterraste com o teu amor por nós. agradeço-te por isso.)
a hora é sincera. gostava de ter tido um ombro amigo que suavizasse o pouco (mas tão cortante) que aconteceu comigo, sem as palavras formais ou as frases de condolências pré-concebidas que me habituaram. gostava de não ter de deixar a minha mãe sozinha nesta casa quando partisse para a universidade. gostava de ter o meu irmão sempre comigo. gostava de ir a todos os jogos do Sporting. e gostava, mesmo, de ter um sítio confortável para regressar ao fim-de-semana. 
a nossa casa é onde o coração estiver, certo? mas o meu coração está bem longe daqui e é inalcançável fisicamente a maior parte do tempo - apesar de todas as reviravoltas da vida, ainda não mudei a puta da mania de querer sempre o impossível. 
e entre tantas e tão diversas coisas, já não sou quem era, mas continuo a acreditar no amor e em tantos outros (mas tão bonitos) clichés, embora muitos retirem hipocrisia dos meus ideais. sou o que sou quando escrevo. e não sou mais do que aparento, muitas vezes, por medo de ser encurralada pelas mentalidades fechadas que me rodeiam. (mas, em breve, libertar-me-ei (espero) destes monstros que insistem em perseguir quem é diferente e, sobretudo, quem quer fazer a diferença.)

entretanto, no meio desta noite fria de verão, olho-me ao espelho e, apesar de ainda ter medo do meu reflexo, já vejo sem me deslumbrar, já vejo as limitações, e sei que vou conseguir superá-las.
hoje sou noite, sou um futuro incerto, uma estrada com curvas cerradas, sou a determinação de algo que está para vir, sou a certeza de quem quer partir. 
e sou muita, tanta coisa, em tão pouco tempo. e não duvido, hoje (apesar de tantas vezes me cortarem as asas) sou janelas abertas, bem abertas, e portas fechadas: porque eu gosto é de viver a vida nos parapeitos mais altos, sempre em busca de forças para voar. 

[estou grata pelos obstáculos (tão insignificantes) que a vida me deu.]


1 comentário:

Mariana disse...

Sempre foste, querida Ana, a pequenina da nossa família. A mais novinha, mas das mais confiantes e certas dos ideais que segue. Sempre com um bom filme, um bom livre ou uma simples citação, sempre pronta a ser colo de quem de ti precisasse, sempre a ser tanto que hoje senti-me demasiado pequena, pouco ao lado do que merecias. Porque sabia o que tinha acontecido à tua família e não te apoiei, não te acompanhei, não fui o abrigo que talvez precisasses, ou a companhia na loucura para esquecer todas as tragédias. Li-te, conheci-te mais um pouco, mas acho que te faltou descrever a magia que tens, a loucura que és e trazes para a vida de cada um, incentivando-nos a ser cada vez mais quem nós somos. Não te percas querida, nunca. Não deixes de ser quem és apenas pelos outros não te perceberem.

Beijinho.