14 de agosto de 2014

O Mestre de ser quem sou

[Para aquela que, um dia, me ensinou a importância daquilo que se esconde nas entrelinhas]

Na nossa primeira conversa (a primeira de muitas) perguntou-me quem era eu e porque estava ali sentada, à sua frente. E, naquela tarde de Setembro, quando falámos pela primeira vez, senti o medo na sua cara, sabe? Tenho a certeza de que estava à espera que lhe dissesse que eu era mais uma das perseguidas pela Matemática. Mas não era, nem sou. E acho que entendeu isso quando apenas lhe respondi "Fernando Pessoa", porque da sua cara séria nasceu um sorriso sincero, quase como um sinal de alívio. Disse-me depois que era (e é) o seu escritor favorito e, a partir daí, estabeleci consigo uma ligação que nunca lhe conseguirei explicar.
As semanas foram passando e acho que, pouco a pouco, foi perdendo essa tristeza típica de quem lecciona uma disciplina que nada mais é do que um refúgio para aqueles que não conseguem ter outras opções.
À medida que deixava para trás essa frustração, eu fui conhecendo, pela primeira vez em toda a minha curta vida, um ser humano cuja alma se fundia, completamente, com a Literatura Portuguesa.
E, para ser sincera, depois dos dois maravilhosos anos que passei consigo, com os trovadores, os clássicos, os românticos e, até, com o "nosso" Pessoa, quem se fundiu com eles fui eu.
Aquilo que fez comigo não se faz.
Porque, aos poucos, o meu amor às palavras, aos versos e àquilo-que-se-esconde-nas-entrelinhas, foi alimentado como se de uma chama se tratasse. Foi um vício seu, acender-me constantemente com poetas, e agora é um vício meu, que não consigo apagar este fogo que há em mim. Mas quero ter um futuro estável, entende? Quero uma vida boa para mim e para os meus. Quero uma vida que, feliz ou infelizmente, a Literatura nunca me conseguirá dar. E isto agora deixa-me louca, professora. Deixa-me totalmente fora de controlo. E a culpa disto é apenas sua (e minha por me ter inscrito na sua disciplina! a matemática ter-me-ia dado menos desgostos!).
Contudo, e apesar dos apesares todos que agora fazem parte da minha rotina, a professora tirou-me da solidão literária que me assolava quando me encontrou, e permitiu que as minhas leituras fossem transportadas para a dimensão da minha vida real - (que, sinceramente, passou a resumir-se às quatro paredes que nos juntavam).
Nunca tive um Mestre, porque nunca encontrei o verdadeiro Caeiro capaz de me persuadir a segui-lo, mas acredite que, neste momento, o nosso Pessoa está orgulhoso do trabalho que a professora tem feito com as almas perdidas que entram na sua sala.
O texto está longo e longa será também a noite em que o estou a escrever.
Desta vez não pode salvar-me com a poesia, mas não é por isso que deixarei de consumir a que me ensinou.
Todas estas palavras (sabe bem como às vezes gosto de ser complicada) para lhe dizer que foi consigo que aprendi que tudo neste mundo é uma Metáfora e, apesar do rigor a que me submeteu, estarei eternamente grata por isso, professora.

(Nunca se esqueça de ler o que está nas entrelinhas. Eu nunca esquecerei)

4 comentários:

Mariana disse...

tão bonito Ana! Continua com esse amor pelas palavras e pelas entrelinhas!

Lúcia disse...

gostava de ter tido alguém assim na minha vida, gostava mesmo

inês silva disse...

Adoro a forma como escreves e sintetizas as emoções!

r: tu também és linda linda linda, tanto ou mais que eu e a Lena :p

Sofia Carneiro Machado disse...

Gostei muito, Margarida :).
Eu segui as Matemáticas, por mero acaso, ou apenas por falta de informação por parte da diretora de turma e sinto sempre algum arrependimento em não ter feito Literatura para aprender a ler os escritores que, de tão portugueses, deixaram a sua língua imortalizada nas grandes obras que são as suas.

Desculpa estar a escrever isto no comentário mas não encontrei email nem qualquer outro contacto. Acabei agora mesmo de descobrir o teu blogue, porque me chegou o teu postal do PPC 2014, só que eu já tinha trocado postais com outra "amiga quadripolar", só recebi um email e não eras tu a minha correspondência. Estou a sentir-me mesmo mal por isso, se puderes, deixa-me o teu contacto/morada para poder retribuir o mimo :)