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E o gira-discos antigo a tocar, com o silêncio do gato e de todos os animais lá fora. Também o nosso. Não nosso, meu, visto que estou sozinha numa casa triste e sombria.
São cinco horas da tarde e começa a escurecer. A minha mãe? Não sei. A minha irmã? Não quero saber. Eu? Eu estou aqui de corpo e… ia dizer alma (força do hábito) mas não posso mentir, não sei por onde anda a minha alma.
Talvez esteja nos VHS da infância ou mesmo no gato, que me ouve e não fala. “Gostava de falar mais vezes com a minha irmã”, escrevi num dos meus diários carregados de purpurinas quando tinha uns sete anos. Que idiota era! Quem é que deseja falar com alguém que nos humilha constantemente? E com isto disse adeus aos jantares de família, onde tinha de responder a perguntas ridículas e aguentar extremas comparações. Eu era sempre a coitada, o sujeito simples que vinha antes do “menos”. A que ouvia e não era ouvida, a que respeitava e não era respeitada. A que chorava e era obrigada a sorrir.
Era Novembro e as chuvas inundavam a minha vida. Nesse dia não usei o vestido verde, não vesti o casaco de veludo nem fiz a trança no cabelo. Estava frio.
Acendo a lareira? (o cão atrás do gato) Acendo ou não? A casa nem estava fria, estava escassa de almas, isso sim. Com corpos esbeltos, sorrisos quase perfeitos, cabelos loiros bem tratados, mas e as almas? Não estão. Foram de férias, emigraram se calhar. E acendi a lareira… O chá a arrefecer no canto da secretária, o aroma da maça e da canela dissolvidas, o calor da lareira! Ah! Sabe bem ver o fogo e beber chá. Brindemos a tudo, amigos… a tudo o que não temos!
E fiquei paralisada naquele ambiente calmo. As fotografias no chão (eles querem dar cabo de mim)… E de repente, a minha mente abriu-se e as memórias vieram como um barco que percorre um rio lentamente. Foi aí que me lembrei dos bons momentos que passei na casa do centro. Quem me dera voltar lá! Cento e trinta fotografias depois, já estava eu na festa dos 14 anos da minha irmã, os tios, os avós, os pais, toda a família feliz, sem maldade ou ódio. Podia ser assim para sempre, queria tanto que fosse assim para sempre. E eu jantava com todos eles, juro. Mas desta maneira não posso, não consigo. Não quero!
Bateram à porta: “Vamos jantar todos em casa da tia Isabel…”, “Não vou.”, “Como quiseres, se tiveres fome o jantar está no microondas”.
E depois de confrontar a minha mãe (não me chamem mal-educada), meti mais lenha, bebi mais chá e adormeci em cima das fotografias.
Era Novembro, chovia e não fui jantar com a minha família.
Ana Margarida Ramos,
4 comentários:
gostei , sigo *
Muito bom , Ana , escreves munto bem , tens imenso jeito , e quem sabe , mais tarde , serás escritora de renome internacional .
Já caí . Allons-y ;)
Aww olha quem fala! (:
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que texto fantástico!
amei!
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