Atravessa o corredor e vem até aqui. Não faças barulho, o teu cão está a dormir. Abre a janela. Todos precisamos de ver a luz do Sol de Agosto. Todos precisamos de uma alma nova.
Eram onze horas de mais uma longa manhã de Verão. A pequena, a doce menina da casa número 7 permanecia sentada sobre o tapete felpudo do seu quarto cor-de-rosa. A tia já a havia chamado umas três vezes. O seu cão vagueava pela casa, triste, indiferente.
Era dificil arrancar a pequena do quarto, ultimamente. A tia estava assustada. Não sabia o que fazer. Já tentara de tudo, os bolinhos de limão de que a pequena tanto gostava, as sessões de leitura debaixo do castanheiro, as improvisadas horas do chá com a boneca Miriam e a sua gata branca, até deixara um pomposo presente na cozinha, Mas a pequena continuava sentada no tapete felpudo, o cão continuava a vaguear pela casa e a tia... cozinhava três dúzias de bolinhos de limão por dia, com esperanças de voltar a ver a pequena a sorrir. Fazia isso há mais de cinco dias. A tia tinha esperança. Afinal, a esperança é a última a morrer.
Num final de tarde de Setembro, quando a tia voltava do campo, Artur, o cão estava deitado em frente da porta do quarto da pequena. Estava triste, muito triste. A tia entrou e em vez da pequena, um caderno ocupava o tapete felpudo. A tia abriu e logo na primeira página encontrou "Não fomos feitos para ficar sempre nos mesmos lugares, não fomos feitos para ouvir sempre as mesmas histórias. Ninguém nasceu para ler para sempre os mesmo livros." A verdade é que em 14 anos, a pequena apenas lera 3 livros, dois de culinária e o outro, um livro de contos.
A pequena desapareceu para sempre. Partiu em busca de novas histórias, de novos lugares. Na estante da sala apenas estavam dois livros. Qual estaria na mochila da pequena? O de contos? Não! Era um de culinária, afinal a pequena tem só 14 anos e não pode viver sem os bolinhos de limão.
A lareira da sala nunca mais foi acesa, o tapete permaneceu intacto, o Artur morreu de desgosto, a tia não voltou a cozinhar e a casa número 7 nunca mais voltou a receber o calor, nem a luz Solar, nem a ternura da pequena.
Ana Margarida Ramos,
3 comentários:
Esse texto deixou-me um tanto triste, o frio que descreveste lembrou-me a solidão.
óptimo texto (:
Obrigada, e custa-me ver o teu texto que é tão bom com tão poucos comentários :\
Acho que, infelizmente, tenho de concordar contigo na parte de as pessoas seguirem só por seguirem. Eu só sigo quem realmente gosto dos textos...
És muito querida, e tenho-te muito que agradecer.
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