15 de dezembro de 2018

em janeiro, era o começar devagar. fevereiro, por vezes, trazia neve, escola fechada e tardes no quentinho. março era o despertar da primavera. em abril, chovia, mas as flores começavam a nascer dentro de nós. maio eram as visitas rápidas, entre testes, exames, papeis a voar e abraços-que-dão-força. em junho, o calor chegava devagarinho e o corpo deixava de pedir sopa quente a todas as refeições. em julho, o poema mais bonito do mundo (o meu avô) ganhava versos e celebrávamos, sempre, com pão de ló caseiro (e às vezes comprado no pingo doce)... e íamos para a praia, repetiamos velhas histórias, ficávamos mais morenos e brindávamos cada pôr-do-Sol com um gelado. agosto eram as sestas demoradas, os fins de dia na marquise, o calor infernal e o tempo a passar como eu gosto: como se toda a vida fosse uma longa e demorada tarde de verão. setembro era um novo começo, com cheirinho a vindimas e a livros novos. a acordar cedo para ver o avô a desejar bom dia à vinha e a avó atarefada, a provar que a idade é um mero conceito inventado. era a contagem decrescente para o meu aniversário, enquanto tropeçava nas uvas e fazia de conta que ajudava (na verdade, eu só ia para ver qual era o efeito do vinho nos homens às 9h da manhã). outubro era o meu mês, as folhas mudavam de cor enquanto nós mesmos mudávamos também e eu somava mais um ano à vida, com as mãos cansadas e a voz rouca de atender tantas chamadas. agora, só penso em como daria tudo para atender mais uma, uma última vez. novembro começava com mil voltas à Feira e churros quentes para fechar o dia. depois, levava consigo a emoção dos Santos e trazia finalmente o frio: a escola começava a sério e a geada também. era tudo sobre procurar, algures no mundo, um lugar que aquecesse (as mãos, o nariz, o coração e a vida), e eu sabia sempre para onde tinha de ir. depois, chegava dezembro. chegavam as luzes, os bolinhos de bacalhau, as rabanadas, as tardes passadas a cozinhar e a cantar (sonhos que sonhei, onde estão? horas que vivi, quem as tem?), a árvore de Natal montada por mim, debaixo do olhar atento da minha avó, que sempre dizia que "Natal sem pinheirinho, não é Natal", enquanto tudo o que o meu avô queria era ouvir o que o Marcelo tinha para dizer.

hoje, avô, o Marcelo é presidente. hoje, avó, dou por mim a trautear a "sol de inverno" sozinha.
e, hoje, dezembro é vontade de pedir por mais um abraço quentinho, de ouvir o avô a reclamar por nunca receber presentes (quando todos sabemos que é o que recebe sempre mais), de ouvir as queixas da avó perante um polvo que (surpresa) minga todos os anos.
hoje, mais do que nunca, dezembro é sinónimo de (tanta, tanta, tanta) saudade
e eu,
porque não me conformo com isto de esquecer quem já partiu,
pego na minha e vou já, já acender as luzes da árvore de Natal:
porque enquanto houver memória, há "pinheirinho", e enquanto houver "pinheirinho", há Natal.

(onde quer que cada um de nós esteja). <3 p="">

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