eram três da tarde e morreste-me como uma criança que adormece na brisa da primavera: numa serenidade enternecida, sem deixar mágoa nem tristeza para trás.
disse-te adeus quando as tuas mãos ainda eram as tuas mãos e quando os teus olhos sorriam de esperança, ainda sem saber que dias depois te diria adeus para sempre.
dei-te uma flor no dia do teu funeral, avô, e agora, um ano depois, trago comigo no coração a gratidão que essa flor significou no dia do nosso derradeiro adeus.
hoje, como todos os dias desde então, aprendo novamente a viver num mundo que, apesar de não ter a tua voz, tem o Sol das três da tarde que te levou.
como te disse, tudo mudou: a vida já não é a mesma, a rotina já não passa pelos nossos lugares comuns, o telefone de casa já não toca, o vazio insiste em não ser preenchido e o coração vive sempre, sempre, sempre cheio de saudades tuas.
às vezes, o tempo insiste em ser meu inimigo, o frio gela-me a pele, a solidão deprime-me, a saudade atrapalha-me e eu acordo a pensar que simplesmente não quero viver num mundo sem ti.
mas depois, avô... depois, encontro flores iguais à que levaste contigo, nas tuas mãos - ainda hoje tão vivas nas minhas próprias mãos - e tudo o resto se eclipsa nesse Sol das três da tarde que insiste em vir.
e eu sei, avô: desde o teu adeus, já não é ele que me aquece
és tu.
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