4 de junho de 2016

3 de junho

meu amor, ontem escrevi-te na esperança de, um dia, voltar a ler-te, como tanto gostavas.
hoje, o contexto é diferente, como será tudo a partir daqui; 
ontem era apenas ontem, e hoje, só por ser este dia, será sempre hoje, amanhã e todos os dias que me restarem. 
as palavras são poucas, avô. 
é como se, de repente, a vida desse uma volta de cento e oitenta graus, como se tivessem arrancado a alta velocidade sem me deixarem apertar o cinto. 
e as palavras serão sempre poucas, avô. 
a vida continuará a mesma, mas o céu terá um azul diferente, mesmo nos dias mais cinzentos; as estações terão uma cor ainda mais bonita, a cor dos teus olhos, dos teus cabelos, a cor da tua voz (porque se a tua voz tivesse cor, avô, seria, sem dúvida, a mais bonita de todas); o vento não voltará a arrepiar-me da mesma maneira; o mar deixará de ser apenas o mar, porque estarás nele, em cada onda; os meus livros serão sempre os teus livros; cada verso de poesia serás tu. 
e o verão chegará em breve, avô, desta vez sem histórias da Índia a vermos o mar, mas certamente com lembranças bonitas no silêncio que será (estranhamente) o meu, numa presença-ausência que será a tua. sempre, avô.
hoje, por ser hoje, mas todos os dias, por serem teus também, agradeço por me teres dado tanto, em tão poucos anos, e recordo todos os teus gestos, todo o teu requinte, toda a tua poesia. as tuas mãos, as minhas mãos que são tão iguais às tuas.
e, sabes, avô, as palavras serão, sempre, sempre, sempre, poucas: porque já as gastámos os dois; porque, por muito que queiramos, não chegam para expressar tantos sentimentos; são e serão poucas porque há um mar imenso e um universo à tua espera a separar-nos. e eu estou bem com isso. apesar de tudo.

por muito dolorosas que sejam as mudanças, por muito que me custe acordar para a realidade e apesar dos apesares todos, avô, deixo as palavras serem poucas e repito-as, porque tenho uma grande certeza comigo e, sem medo das palavras repetidas, para que a certeza seja tua também, digo-te, novamente: és e serás, sempre, o poema mais bonito do mundo. 

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