6 de maio de 2015

crónica dos dias que passam

acordei um minuto antes do despertador. (apanhei-te, seu traidor). a mãe veio sentar-se na cama e deu-me um beijo. o meu dia começou com esse beijo. ouvi a porta a bater e o carro a ligar. a mãe saiu. eu fiquei.
comi. vi fotografias bonitas, como acontece todas as manhãs. arranjei-me. abri a porta e vi o Lord da minha vida deitado ao Sol. gostei tanto de o ver assim que jurei estagnar o meu tempo durante uns minutos. eu estagnei. o tempo continuou a correr. cheguei atrasada ao destino, portanto.
tudo igual. o mesmo caminho. as mesmas casas. as mesmas passadeiras. as mesmas pingas a cair no mesmo sitio de sempre. é chata a rotina? é. mas eu gosto deste caminho das minhas manhãs.
na escola está sempre tudo em movimento e eu adoro chegar quando as pessoas estão no seu ritmo acelerado.
o caminho. as flores. o rosa da minha escola. as pessoas a correr com o tempo e contra ele. a minha música. tudo numa sintonia perfeitamente banal. mas banalmente perfeita.
aula de história. imagens bonitas nos nossos livros. estamos a chegar ao século XXI e eu não desgosto. o muro da Cisjordânia podia ser mais bonito. os conflitos nunca acabarão enquanto os estados unidos da américa quiserem meter o nariz em tudo. desculpa Obama, mas eu acho que vocês são os maus da fita. aula de educação física. as aulas mais aleatórias e imprevisíveis de todas. o que fazemos? não sei. stor o que fazemos? sigam em frente. e nós seguimos. passamos pela rua de st.antonio. cumprimentamos a ponte romana e viramos à direita. caldas. não sabemos ainda o que fazer. há muito pólen no ar e passei a viagem toda a queixar-me. a relva é confortável mas o plano é indefinido. então voltamos para trás. caminhada até à escola cor-de-rosa, porque se nos mexemos já estamos a praticar exercício físico. jogar ao mata? sim, jogámos ao mata até ser hora de ir embora. fome. fome. fome. tanta fome. tenho um bicho dentro de mim a pedir comida. ligo a mãe. já sai.
casa da avó. entro e mesmo dali consigo cheirar a comida da avó que não sou capaz de comer. desculpa avó, mas ainda não me livrei deste temperamento. eu sei que gostas de mim. cheguei o vinho ao avô. 17 anos sem entender como consegue bebe-lo àquela temperatura. há loucos para tudo e o meu avô é louco para muita coisa :)
saímos na mesma pressa de sempre. o relógio marca sempre mais dois ou três minutos do que o suposto mas já sabemos essas imperfeições decor.
a sala de estudo é o sítio mais bonito da minha escola. assustadoramente mística no Inverno. brilhantemente luminosa na Primavera. levo delas tantas recordações que quase conseguiam encher todas as páginas dos livros daquelas estantes antigas.
ouvi o toque. aula de apoio. mais história. a minha memória não é assim tão boa. que não-novidade. outra vez o toque e desta vez estamos livres.
andei para o ginásio e fui fazer alguma coisa por mim. podiam não repetir sempre a mesma música. hoje passou uma espécie de ópera italiana. deve ter sido empurrada sem querer para a workout playlist do spotify. tomei um duche gelado, vesti-me e sai. ainda é de dia. e começa a deixar de ser estranho para mim não chegar a casa já de noite. acabamos sempre por nos habituar sem querer a estas coisas. enquanto esperava pela minha mãe fiz a mesma afirmação de sempre. este movimento quase que parece nova York. há uma passadeira que quase quase quase quase parece uma passadeira de ny. hoje não passei por ela ao fim do dia, quando é hora de ponta nesta nova York ocidental. eu sei que não, mas gosto de acreditar que sim.
cheguei a casa cansada. ainda é dia. e deitei-me na cama (que contradição) a pensar em poesia. se esta fosse a minha ocupação eu acho que conseguia ser muito feliz.
a mãe chegou depois de ter saído outra vez. vesti o pijama. a partir daqui a rotina é mesmo uma rotina. e eu, pessoa que odeia monotonia, sou capaz de adorar esta rotina familiar. a minha família agora tem dois elementos humanos presentes. e.somos felizes a comer morangos.
hoje não ajudei a mãe no jantar, mas amanhã compenso a minha ausência.
comi um arroz óptimo de tão simples que era.
agora escrevo enquanto a mãe adormece. o barulho de fundo é o da noite.
e foi este o meu dia que agora acaba.


se mais tarde sofrer de alzheimer quero lembrar-me de que fui feliz com as pequenas coisas. e nos pequenos dias.

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