Mais um ano passou (como é possível os anos durarem tão pouco?) e chega novamente a altura em que as pessoas insistem em lembrar-se de quem já as esqueceu. Erro por este mundo fora e reparo que se torna perfeitamente normal pedir coisas. Pedir a ti, a Deus, ao Universo inteiro (como se qualquer um de vós ouvisse realmente as preces dos mortais nojentos que vivem cá em baixo).
Não sou de modas, mas de estar habituada a ser constantemente de nada (e a ser constantemente nada, também), acabo sempre por me deixar levar por tudo. E em jeito de mortal nojento, venho pedir-te.
[Sei que não vais ler esta carta, mas insisto. Sei que não a devia escrever, mas escrevo.]
Este ano, pela primeira vez na minha vida, tenho um montão de coisas para te pedir. E são tantas, tantas, tantas coisas que nem sei como explicar-te como as quero tanto, tanto, tanto.
Estou farta de viver rodeada de nuvens - e sabes bem que não me refiro às do céu-, estou farta de caminhar numa tempestade que piora a cada passo meu.
O ano passado pedi-te, como te peço todos os anos, para me dares paz e amor, mas dei conta que afinal invertemos os papéis e quem se fartou de dar paz e amor às pessoas fui eu. E dei tanto de mim que acabei por esgotar os meus reservatórios. Sim, leste bem: esgotei-me. Estou triste, cansada, exausta e não aguento mais não aguentar as montanhas que me têm aparecido no caminho. Porque a noite chega (na verdade ela nunca se vai embora, mas soa melhor escrever que a noite chega) e não traz um único raio de luz com ela. Nem um candeeiro, nem uma vela, nem o Luar. Para mim, talvez por ter a mania de ser nada, não vem coisa alguma.
Não quero que penses que sou ingrata, porque se queres que te diga, apesar de todos os meus defeitos, não me considero uma pessoa ingrata, mas neste momento preciso de respostas, entendes? Preciso desesperadamente de respostas. Claras. Escuras. Da tonalidade que bem entenderes. Mas respostas, no sentido único da palavra.
Acho que mereço.
Não fui a melhor pessoa do mundo, nem nunca o serei, bem sabes, mas fiz de tudo (e sabe-se lá como) para suportar mil e uma coisas que não era suposto serem suportadas por mim. E em momento algum deixei cair as minhas pernas frágeis. Em momento algum falhei com os demais (corrige-me se estiver errada). Nunca mostrei o meu lado, claramente em destruição, aos meus. E mesmo assim, mesmo depois de tudo, acabei por perder a família, a casa cheia, as longas viagens em conjunto, o mergulhar nas ondas de mãos dadas, a árvore de natal. Perdi o recordar feliz das memórias que fizeram de mim aquilo que costumava ser, apenas porque o botão de replay foi inteiramente destruído pela bomba que caiu a meus pés.
Enfim, como já sei que não posso ter o Universo inteiro, que tanto desejo, nos meus braços, ou até mesmo as minhas recordações mais básicas, ouve, Pai Natal:
o tanto que te peço é que não me tires o pouco que me resta.
Cuida de ti, dos teus e oferece muita Paz e muito Amor aos meus
(porque, sinceramente, deixei de saber o significado dessas palavras)
(porque, sinceramente, deixei de saber o significado dessas palavras)
Abraço forte da
Margarida
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